IA nas demissões: como avaliar custo total e evitar cortes injustos

IA nas demissões: como avaliar custo total e evitar cortes injustos

Quando eu leio “demissões na era da IA”, eu não vejo só uma manchete — eu vejo um padrão técnico e organizacional que já esbarrou em times de produto e engenharia por todo o ecossistema. Segundo o OlharDigital.com.br, funcionários do Google entregaram uma petição cobrando proteção contra demissões, argumentando que a IA pode virar justificativa para cortes. Na minha experiência, o risco real não é a IA “substituir pessoas” de forma mágica; é a empresa usar a narrativa de eficiência para recalibrar orçamento e headcount sem transparência — e isso pode acontecer inclusive com ganhos legítimos de produtividade.

O que está acontecendo no Google (e por que devs precisam ligar)

Segundo o OlharDigital.com.br, funcionários do Google (via o Alphabet Workers Union) entregaram uma petição à direção exigindo medidas de proteção. A pauta inclui indenizações garantidas, opção de desligamento voluntário antes de cortes obrigatórios e mudanças no sistema de avaliação interna. Eles também afirmam que não é uma questão de dificuldade financeira, mas de uma decisão administrativa: priorizar lucro sobre pessoas.

Do ponto de vista de engenharia, há um detalhe importante: “IA” vira um argumento conveniente porque é difícil mensurar internamente o quanto cada melhoria foi atribuível. Muita coisa pode ser reclassificada como “transformação” quando, na prática, significa redução de custo ou reforma de estrutura. E, quando a avaliação interna é opaca, a decisão pode parecer “técnica”, mas ser essencialmente “financeira”.

IA e reestruturação: o mecanismo que costuma dar errado

Eu já vi reestruturação usando IA como acelerador retórico em três fases. Não é sempre igual, mas o modelo mental se repete:

  • Fase 1 — Congelar contratações: “Estamos otimizando, então vamos contratar menos”.
  • Fase 2 — Reclassificar times: funções são redesenhadas e parte do trabalho migra para “produtos com IA”, frequentemente sem manter a mesma proporção de pessoas.
  • Fase 3 — Avaliar por impacto narrativo: métricas são substituídas por indicadores de “alinhamento com IA”, que são mais fáceis de demonstrar do que de auditar.

O que os trabalhadores estão pedindo na petição — inclusive mudanças na avaliação e regras de desligamento — é, na prática, uma tentativa de reduzir o “gap” entre o que é medido e o que é decidido.

Por que o sistema de avaliação interna vira ponto crítico

Em engenharia, avaliação geralmente deveria ser baseada em entrega: qualidade, estabilidade, desempenho, impacto no usuário, custo/benefício de longo prazo. Só que “IA” costuma introduzir métricas que parecem objetivas, mas são instáveis:

  • “Uso de modelos” como proxy de valor (nem sempre corresponde a resultado real).
  • “Inovação” sem auditoria de impacto (vira placar político).
  • Atividades de suporte (incidentes, observabilidade, custo de infra) que ficam invisíveis.

Quando a avaliação passa a privilegiar sinais fáceis de reportar, a organização pode acabar premiando quem “narra bem” e penalizando quem “entrega bem”, mesmo que o usuário ganhe pouco.

O lado técnico: IA pode reduzir esforço, mas não elimina custos

Vamos ser honestos: IA pode melhorar produtividade. Eu uso isso o tempo todo para acelerar rascunhos, testes, revisão de código, documentação e até geração de boilerplate. O problema é que produtividade não é sinônimo de redução imediata de headcount. O custo migra.

Na prática, quando você “coloca IA no meio”, você cria novas categorias de trabalho:

  • Governança (políticas de uso, auditoria, compliance)
  • Observabilidade (logs de prompts, rastreio de falhas, métricas de qualidade)
  • Segurança (prompt injection, dados sensíveis, riscos de exfiltração)
  • Custos variáveis (tokens, latência, throughput)

Então a pergunta que devs deveriam fazer internamente é: “A IA está diminuindo o custo total do produto, ou apenas redistribuindo o trabalho e permitindo cortes em áreas que não são visíveis no slide?”

Comparando: como isso costuma ser tratado em outras empresas (e por que muda pouco)

Você encontra padrões parecidos em vários lugares do mercado:

  • Big Tech: redesenho de times e programas com “IA-first”, seguido de consolidação de funções.
  • Startups: layoffs por “runway”, com IA sendo usada para prometer eficiência sem orçamento para implementar observabilidade e qualidade.
  • Empresas de enterprise: migração para “copilots” com mudanças mínimas em governança, e depois cortes em áreas de suporte e integração.

O ponto é: a ferramenta é menos relevante do que o processo. Se o processo de avaliação e decisão for frágil, IA vira justificativa. Se o processo for sólido e auditável, IA vira melhoria real sem virar desculpa.

Na Prática: como você mede “impacto IA” sem cair em armadilha

Se você trabalha em produto ou engenharia, dá para colocar um guard-rail técnico e evitar que “IA” vire só narrativa. Eu faço isso com um pacote simples: métricas de custo, métricas de qualidade e métricas de usuário, amarradas por experimento.

Passo a passo (checklist para evitar cortes injustos baseados em narrativa)

  1. Defina o objetivo (ex.: reduzir tempo de resolução, melhorar taxa de acerto, diminuir custo por tarefa).
  2. Separe métricas em 3 camadas: qualidade (ex.: precisão), eficiência (ex.: latência/custo), e impacto (ex.: satisfação/retention).
  3. Meça antes e depois com baseline. Sem baseline, vira “achismo”.
  4. Faça alocação de custo (tokens, retries, tempo de GPU/CPU, custo de observabilidade). Sem custo, a IA parece “barata”.
  5. Inclua custo operacional: incidentes, regressões e suporte pós-lançamento.
  6. Documente critérios de sucesso e mantenha auditoria dos logs relevantes (com privacidade).

Exemplo funcional: calcular custo estimado por 1.000 requisições

Em projetos com LLM, uma das métricas mais “auditáveis” é custo por volume. Aqui vai um exemplo de script que eu uso como base para estimar custo com tokens e taxa de retriable errors.

from dataclasses import dataclass

@dataclass
class ModelCost:
    input_cost_per_1k: float   # R$ por 1.000 tokens de entrada
    output_cost_per_1k: float  # R$ por 1.000 tokens de saída

def estimate_cost_per_1000(
    cost: ModelCost,
    avg_input_tokens: int,
    avg_output_tokens: int,
    retry_rate: float = 0.0
) -> float:
    """
    retry_rate: fração adicional de requisições que serão reexecutadas (0.02 = 2%).
    """
    total_input = avg_input_tokens * (1.0 + retry_rate)
    total_output = avg_output_tokens * (1.0 + retry_rate)

    input_cost = (total_input / 1000.0) * cost.input_cost_per_1k
    output_cost = (total_output / 1000.0) * cost.output_cost_per_1k

    return input_cost + output_cost

if __name__ == "__main__":
    cost = ModelCost(input_cost_per_1k=0.012, output_cost_per_1k=0.024)
    estimated = estimate_cost_per_1000(
        cost=cost,
        avg_input_tokens=1200,
        avg_output_tokens=450,
        retry_rate=0.03
    )
    print(f"Custo estimado por 1.000 requisições: R$ {estimated:.4f}")

Por que isso ajuda? Porque corta a discussão subjetiva. Quando custo por 1.000 requisições cai e qualidade sobe (e o baseline é real), você tem evidência. Quando o custo explode e mesmo assim o discurso é “eficiência”, a probabilidade de a decisão ser financeira (e não técnica) aumenta.

Erros Comuns: o que evitar quando “IA” entra em avaliação e decisões

Dev experiente detecta superficialidade rápido. Em layoffs e reestruturação na era da IA, os erros mais comuns que eu vejo (e que você deve observar) são:

1) Usar “uso de IA” como métrica de desempenho

Se o time só mede “quantas pessoas usaram um copiloto”, você terá viés. Uso não é resultado. É possível usar e piorar qualidade.

2) Ignorar custo operacional e observabilidade

LLMs exigem monitoramento. Sem isso, a qualidade desanda e o time de suporte “paga a conta”. Depois, esse custo some da contabilidade e vira desculpa para cortar pessoas.

3) Trocar métricas de qualidade por métricas fáceis

Por exemplo: “quantidade de respostas geradas” sem medir taxa de correção, completude e satisfação do usuário final.

4) Não fazer baseline comparável

Se você compara uma era antiga com outra com mudanças de produto, você perde a causalidade. A IA pode ser só coincidência.

5) Reclassificar tarefas sem transparência

O trabalho continua, mas muda de nome: “manutenção virou treinamento”, “suporte virou governança”, e assim por diante. Se ninguém rastrear o que foi efetivamente absorvido, você cria o terreno perfeito para cortes “sem impacto”, que na verdade criam gargalo depois.

O que essa petição indica para o futuro do trabalho em engenharia

Quando trabalhadores pedem indenização garantida e desligamento voluntário antes de cortes obrigatórios, isso não é só política trabalhista. É uma tentativa de criar previsibilidade. Em engenharia, previsibilidade é o que impede duas coisas:

  • piora de qualidade por perda súbita de conhecimento tácito (sistemas que “só funcionam porque alguém conhece”);
  • desorganização técnica em cascata (falhas em observabilidade, incidentes, rollback lento).

Além disso, mudanças no sistema de avaliação interna tendem a pressionar por critérios mais objetivos — e isso, mesmo para quem não está buscando emprego, melhora o desenho organizacional. Menos teatro, mais entrega mensurável.

FAQ

IA realmente substitui engenheiros?

Na prática, o mais comum é substituir parte do trabalho repetitivo e acelerar algumas etapas. O risco maior é organizacional: usar a narrativa de eficiência para reduzir headcount sem medir impacto no produto ou sem considerar o custo operacional novo que a IA cria.

Como devs podem defender métricas mais justas em times com IA?

Exija baseline e métricas em camadas: qualidade, eficiência e impacto no usuário. E inclua custo total (incluindo observabilidade e retries). Métrica justa é auditável.

O que eu deveria observar quando uma empresa diz “prioridade em IA”?

Veja se eles estão reduzindo risco técnico ou só redistribuindo trabalho. Procure transparência em avaliação, governança, custos e como incidentes e suporte são contabilizados.

Como lidar com decisões que parecem “inevitáveis” ligadas à IA?

Documente entregas com evidências. Mantenha rastreabilidade de impacto (antes/depois). Isso não impede toda reestruturação, mas te coloca em vantagem para negociações internas e para proteger qualidade em projetos.

Qual a diferença entre automação de tarefas e transformação de produto com IA?

Automação de tarefa melhora fluxo. Transformação de produto altera arquitetura, dados, métricas e governança. Só a segunda muda de verdade o tipo de custo e os riscos — e é aí que as avaliações precisam ser mais rigorosas.

Gostou? Me segue no GitHub e deixa um comentário se tiver dúvida ou quiser aprofundar algum ponto.

Y

Yuri Sousa

Front-End Developer / Designer

Desenvolvedor apaixonado por criar experiências digitais acessíveis e visualmente perfeitas. Escrevo sobre desenvolvimento web, design e tecnologia.